O dia em que Marcus trocou chocolates por uma infância digna

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A situação que Marcus* vivia tinha tudo para impedir que ele não desfrutasse da sua infância e adolescência como deveria. Morador de Paraisópolis, em São Paulo (SP), quando criança, teve raros momentos em que pudesse brincar, estudar e se preparar para o futuro. Com 8 anos, o menino sonhava em entrar para um projeto social desenvolvido perto de sua casa e, junto com as outras crianças, praticar algum tipo de atividade circense. Porém, como um irmão protetor, Marcus não podia deixar a irmãzinha caçula passar fome.

Para ajudar os pais, todos os dias saía para vender caixas de chocolates. Seu pai, vendedor ambulante, acompanhava de longe a dedicação do filho, que se arriscava entre os carros e ônibus. Marcus dava o seu melhor para não voltar sem o dinheiro que precisava para ajudar sua família. Na parte da tarde, mesmo muito cansado, se esforçava para ir à escola, a pedido do pai que, no passado, viu o primogênito, de 15 anos, falecer após se envolver com o tráfico de drogas.

“Meu irmão também queria trabalhar para ajudar a nossa família, mas, infelizmente, escolheu a pior maneira”, conta o garoto.

Os dias se passaram e Marcus foi convidado para conhecer a organização que tanto sonhava em fazer parte. Com o incentivo e apoio da diretora da instituição, começou a frequentar as oficinas de circo. “A partir desse dia, minha vida mudou” .

Na magia do circo, Marcus encontrou o caminho e o estímulo para evitar os riscos do trabalho infantil e seguir seus passos de menino. Quando ele entrou para o projeto social que ensinava os segredos do mundo circense, não aprendeu apenas a dar piruetas e cambalhotas. Nas oficinas, Marcus teve a oportunidade de viver uma infância digna. O projeto dava o suporte financeiro e cultural que seus pais não podiam lhe oferecer, além de duas cestas básicas mensais. As aulas de circo, teatro, música e atividades de lazer foram ferramentas importantes para afastá-lo do trabalho.

“Ainda lutamos para que muitos meninos possam ser verdadeiros cidadãos”, explica Maria Helena Andrade*, coordenadora do projeto social na comunidade.

Além do problema econômico, que muitas vezes obriga milhares de pais a empregarem seus filhos, existe a questão cultural. Algumas pessoas ainda acreditam que trabalhar cedo é o melhor caminho para a formação de uma criança. Entretanto, os números mostram o contrário. Entre 2007 e 2019, no Brasil, 279 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos morreram e 27.924 sofreram acidentes graves enquanto trabalhavam. Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, expõem o quanto o trabalho precoce é prejudicial para o desenvolvimento integral e à saúde das crianças e dos adolescentes.

É por esse motivo que a Fundação Abrinq trabalha para que outras meninas e meninos, como o Marcus, possam ter seus direitos de brincar e aprender garantidos.

*Nomes e imagens alterados para proteger a identidade dos envolvidos.

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