Uma infância perdida pela responsabilidade de cuidar da casa

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Aos 10 anos, Angelina* vivia com os pais e três irmãos mais novos em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul (RS). Desde pequena, ela e os irmãos ficavam na casa de uma tia chamada Luce*, para que os pais pudessem sair de casa cedo para trabalhar na fábrica de fumo e tabaco a cerca de 90 km de onde viviam. Angelina era uma menina doce, sonhadora e, aos finais de semana, adorava cuidar das plantas e das galinhas que ficavam no quintal de sua casa. Porém, de segunda a sexta-feira, era obrigada a realizar, sozinha, todas as atividades domésticas na casa da tia. Lavava e passava roupas, varria e limpava os ambientes, lavava a louça, recolhia o lixo, preparava as refeições e cuidava dos irmãos. Muitas vezes, os afazeres tomavam todo o seu dia e tempo livre. Para piorar, por conta do cansaço, em algumas manhãs, a menina não conseguia acordar a tempo de ir à escola, junto com os irmãos.

Pela janela, todas as tardes, Angelina passava alguns minutos observando as crianças da vizinhança brincarem na rua. Ela carregava no olhar e no coração muitos planos e desejos, mas se sentia invisível dentro daquela casa. Em meio a tanta diversão, uma menina chamava sua atenção, era a Júlia*. Nos braços, Júlia sempre carregava uma boneca com cabelos ruivos e encantadores. Um dia, ela se aproximou de Angelina, perguntou seu nome e descobriu que estudavam na mesma escola. “Por que você vive trancada aí e nunca aparece na escola?”, perguntou Júlia. A resposta de Angelina é a mesma de muitas crianças expostas diariamente ao trabalho infantil doméstico. “Minha tia toma conta de mim e dos meus irmãos, dá comida, água, roupa e um lugar seguro para a gente ficar, enquanto nossos pais trabalham. A tia Luce sempre me pede ajuda com as coisas dentro de casa e diz que devemos tudo a ela. Tem dias que trabalho tanto, que fico fraca e não consigo ir para a escola. Mas, ainda prefiro ficar aqui do que ajudar meus pais na fábrica. Lá, o cheio é muito forte e minhas mãos doem muito no fim do dia”.

Quando conseguia ir para a escola, Angelina adorava assistir as aulas de Ciência e gostava de aprender sobre as curiosidades do meio ambiente. Durante os intervalos, ao invés de interagir e brincar com os colegas, aproveitava para dormir uns minutinhos na carteira. Às vésperas das férias em julho, Angelina foi chamada na sala da diretoria, por conta de suas notas baixas. No dia, a diretora Marta* pediu explicações sobre seus cochilos constantes e sua falta de atenção em sala de aula e, sincera, a garotinha contou sua realidade, prometendo não repetir mais a atitude. Na ocasião, a diretora entrou em contato o Conselho Tutelar, para entender como poderiam ajuda-la, e explicou para a menina que sua tia não podia obriga-la a fazer todas aquelas atividades sozinha dentro de casa.

Finalmente, Angelina entendeu que sua infância estava comprometida e que seu futuro corria perigo, já que não tinha tempo suficiente e adequado para estudar e brincar como as outras crianças. Cheia de esperança, a menina contou os dias para a chegada do Conselho Tutelar. Inocente, seu pensamento é que pudessem encontrar alguém para ajudar a tia Luce nas tarefas domésticas e seus pais na busca de um espaço ou uma pessoa para cuidar dela e de seus irmãos enquanto trabalhassem.

O final feliz de Angelina chegou dois meses depois da sua conversa com a diretora. Ela e os irmãos conseguiram o apoio de uma organização que cuidava, em tempo integral, de crianças e adolescentes de famílias socialmente vulneráveis. Graças ao Conselho Tutelar, e uma psicóloga indicada por eles, a tia Luce e seus pais entenderam que o trabalho infantil prejudica o desenvolvimento de qualquer criança, pois, na maioria das vezes, ela é afastada do convívio familiar e perde o tempo valioso que teria para brincar, descansar e estudar.

Apesar de comum e mascarado, por acontecer dentro de casa, o trabalho infantil doméstico, segundo o Decreto 6481/2008, oferece sérios riscos ocupacionais às crianças, tais como posições não ergonômicas e movimentos repetitivos, tracionamento da coluna vertebral, sobrecarga muscular, traumatismos, queimaduras, entre outros.

Diga não ao trabalho infantil doméstico! Para denunciar, Disque 100 ou entre em contato com o Ministério Público do Trabalho de sua região.

* Nomes alterados para proteger a identidade dos envolvidos.

 

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COMO
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Todos somos responsáveis por mudar esse cenário. Não compre produtos e nem aceite serviços vendidos por crianças. Não contribua com essa prática.

Se presenciar ou souber de algum caso de trabalho infantil denuncie ao Ministério Público do Trabalho, pelo site https://mpt.mp.br/ ou Disque 100.